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Nosso Arquivo Interior

Passei boa parte da minha vida adulta remexendo no passado dos outros. É verdade que o meu interesse por ele começou ainda muito cedo, pois foi nele que encontrei alívio para as minhas angústias adolescentes. Era para ele que fugia quando achava que o presente era difícil demais para encarar. O passado às vezes confundia-se com a realidade.

Anos depois, logo que me graduei em História, comecei a trabalhar com a memória alheia; passei a limpá-la e a organizá-la. Era a arquivista que emergia. E embora não fora este o motivo que me levara a estudar o passado, eu intuía que este ofício me ensinaria muito. Mas a tarefa não seria fácil. Arquivos são frequentemente considerados lixo, relegados a lugares sujos, escuros e cheios de insetos. É onde ninguém quer ir. No entanto, nos enganamos quando pensamos que tal fato só ocorre no âmbito das instituições. Esse descaso com o “velho” é meramente um reflexo de como nós, pessoas, tratamos a nossa própria história. Desde cedo somos ensinados a lançar pensamentos, instintos, medos e inseguranças para um lugar escuro de nós mesmo. Um pequeno porão, repleto de insetos, onde empurramos sistematicamente tudo o que não temos coragem de encarar, falar e ser. Nosso passado aos poucos também é convidado a habitá-lo. Afinal, quem quer viver dele? E se de vez em quando somos forçados a revivê-lo, rapidamente escolhemos a caixa que nos leva a memórias agradáveis e felizes, com a certeza de que estas estão apenas um pouco empoeiradas. Dificilmente optamos em abrir as caixas que abrigam traças, aranhas e baratas. Mas a verdade é que poucos têm a coragem de descer em seu arquivo interior. É trabalhoso, claustrofóbico, requer tempo e disposição. Parece-nos mais fácil simplesmente negá-lo. No entanto, continuamos a empilhar mais e mais caixas sem perceber que sua estrutura já apresenta rachaduras. O paradoxo é inevitável: quanto mais uma pessoa se julga limpa, mais condenado seu arquivo está. E, assim, reclamamos quando o presente não é como esperávamos. Ora, é impossível construir novos andares em cima de estruturas condenadas. Para o novo emergir é preciso primeiro limpar e organizar o velho. É necessário abrir caixa por caixa, descartar aquelas cujo o prazo de validade tenha vencido, limpá-las e catalogá-las corretamente. É preciso enfrentar a sujeira e os insetos. É necessária força de vontade, pois a tarefa é dispendiosa e pode levar anos. O resultado, porém, é libertador. Não só compreendemos qual a estrutura que nos sustenta, como podemos construir o que almejamos em bases sólidas. E o mais importante: mantendo limpo nosso arquivo interior, nos tornamos mais tolerantes conosco e com os arquivos dos outros.